Pólo de Saúde de Carcavelos

Pólo de Saúde de Carcavelos

Arquitectura, Carcavelos, Portugal

ENQUADRAMENTO E CONCEITO 


O conceito do Pólo de Saúde de Carcavelos parte da "introversão" e da "introspecção". 

Edifícios com o programa-base "Saúde" tendem a ser ambíguos nos sentimentos que geram: tranquilidade (capacidade de cura) vs. medo (perigos associados à enfermidade). A arquitectura tem um papel fulcral no apaziguamento destas sensações que fazem parte da saúde e as implicações na vida do ser humano. 

Também a envolvente apresenta uma fraca identidade verificada pela evolução urbanística sofrida ao longo do tempo. Desta forma, apresentamos um edifício menos "expansivo" e que se vira para o seu interior. Para tal definimos um elemento-chave no projecto que permite a introversão, introspecção, e valorizar o céu e a luz como catalisadores do que é essencial à vida: o pátio. Ao mesmo tempo que ilumina o espaço interior, o pátio também qualifica espaços de estar e de circulação, assumindo-se como peça essencial na organização do programa. Permite, ainda, uma leve e tranquila fluidez espacial, criando níveis de transparência e permeabilidade, desenhando um leque infinito de possíveis percursos ao utente, o que resulta numa oferta rica a nível perceptual. 

Morfologicamente um pátio identifica-se como um vazio, sendo que o espaço, o que a arquitectura desenha, é o cheio. A nossa proposta assume-se, assim, como uma massa compacta de "espaço" num jogo evidente entre "cheios e vazios". Pretendemos uma solução volumetricamente simples, cuja horizontalidade possa transmitir tranquilidade, qual linha do horizonte. Da mesma forma que exploramos este mimetismo entre horizonte/piso único e massa, também trabalhamos o céu/horizonte/tecto, de modo a que não haja apenas uma tranquilidade a nível horizontal, como ainda uma procura pelo "levantar" e direccionar o olhar para o céu e para a luz - uma tranquilidade mais perto. 

Para tal, da massa horizontal irrompem volumes de forma singular cuja localização está sempre associada a um pátio, qualificando o espaço interior com pé-direito duplo. Acentuamos a diferença entre os volumes pois representam dois momentos diferentes: os mais técnicos que permitem ao edifício sustentar-se de forma autónoma; os que remontam à ideia arquétipo de casa. Estes localizam-se sempre associados aos dois pátios de entrada dos programas diferentes, pois pretendem que se identifique rapidamente pelo exterior as entradas do edifício, associando sempre a ideia de "bem-estar'' com a sugestão da casa. 


IMPLANTAÇÃO 


A envolvente de Carcavelos é genericamente caracterizada por bairros residenciais e casas unifamiliares que se intercalam com edifícios de habitação colectiva. Pontualmente encontram-se alguns espaços verdes que conferem leveza ao aglomerado urbano. Na zona mais próxima ao novo Pólo de Saúde também se vêm bairros residenciais e edifícios de habitação colectiva. intercalados com equipamentos diversos:

Escola Secundária de Carcavelos, Fábrica Legrand, entre outros. 

O terreno de implantação tem uma forma alongada e trapezoidal, cujo eixo maior é o longitudinal de orientação Este/Oeste, apresentando um ligeiro declive decrescente de Oeste para Este. 

Outra particularidade deste terreno são os seus limites, pois conjuga duas escalas muito diferentes: uma escala mais próxima à residencial nos lados Sul e Oeste e outra escala de tráfego a Norte e a Este. 

Desta forma, optámos por aproximar o edifício do lado Sul e Oeste, redesenhando o percurso pedonal, implantando-o num longo eixo longitudinal de orientação Oeste/Este, ocupando a maior parte da área disponível. A entrada do edifício está a eixo da rua Jacinto Isidoro Sousa, permitindo uma rápida identificação de quem vem da rua, e uma percepção imagética a partir do acesso a Norte. 


FORMA E FUNCIONALIDADE 


A nossa proposta desenvolve-se, maioritariamente, num só piso e a entrada é feita pelo piso térreo, em continuidade e à cota da rua Jacinto Isidoro de Sousa. 

Neste piso térreo organizamos as três zonas diferentes, como premissa do programa preliminar: a unidade de saúde familiar, o serviço de psiquiatria e a equipa de tratamento. Foi imperativo iniciar o trabalho com a distinção das zonas e da sua distribuição sem que houvesse ao mesmo tempo uma quebra das ligações internas. 

Partindo da premissa do programa, propomos três entradas diferentes: uma para a unidade de saúde familiar e serviço de psiquiatria, outra para a equipa de tratamento, e uma última para entrada apenas de staff, de modo a não haver conflito de percursos e circulações. Associados a estas entradas, pegamos no nosso elemento chave - "o pátio" - para termos ''vazios" organizadores e diferenciadores das naturezas funcionais, em torno dos quais se viram os espaços, de modo a criar e qualificar diversas ambiências.

A primeira entrada assume-se como um grande pátio marcado por uma cobertura em "cone truncado" que desenha um espaço amplo interior, marcado pela sua iluminação zenital, e de onde se inicia a distribuição funcional. Esta entrada mais "pública" contrasta com a entrada mais "resguardado" da equipa de tratamento, que se localiza num ponto oposto que permite uma maior privacidade. 

O parque de estacionamento estabelece-se no piso inferior, em cave, aproveitando a métrica dos espaços do piso térreo e ocupando, parcialmente, a área de implantação do edifício. Deste piso há acessos verticais que ligam à recepção da equipa de tratamento, à recepção da unidade de saúde familiar e serviço psiquiátrico e zona de staff. No total temos 13 lugares de automóveis exclusivos para trabalhadores do Pólo de Carcavelos, dos quais 1 é para mobilidade reduzida, 8 lugares para motociclos e ainda uma zona para estacionamento de velocípedes. Para os utentes, propomos 31 lugares de automóveis, dos quais 2 são para mobilidade reduzida, e 7 lugares para motociclos. A entrada para o estacionamento, devidamente assinalada, estabelece a transição entre o percurso pedestre existente e reformulado - que faz a ligação entre a Escola Secundária de Carcavelos e a Fábrica Legrand - e o edifício, sendo um filtro entre o espaço público e o espaço do Polo de Saúde de Carcavelos. 


MATERIALIDADE 


Propomos evidenciar a simplicidade arquitectónica do nosso edifício, pelo que optamos por empregar materiais que, pelas suas características e durabilidade, requerem o mínimo de manutenção. Cientes da proximidade com o mar e das preocupações mais urgentes e necessárias ao nível da sustentabilidade, desde a origem do material ao factor custo /beneficio/ manutenção, optamos pelo emprego do betão branco de alto desempenho, unindo a sua função estrutural à de acabamento exterior. No embasamento propomos pacas de betão pré-fabricado em sistema de fachada ventilada, pois pode reduzir entre 30% a 50% do consumo de energia de um edifício, melhorando o conforto térmico. 

Para a cobertura plana, propomos como revestimento a cobertura ajardinada pois permite uma melhoria ao nível do desempenho térmico, acústico, contribuindo ainda para a renovação do ar, essencial para a qualidade dos espaços. Propomos também um sistema de aproveitamento das águas pluviais, diminuindo a utilização do recurso hídrico potável, utilizando água pluvial reciclada para o abastecimento de espelhos de água (pátio) e nas águas das retretes das instalações sanitárias. 

Tirando partido da vasta cobertura disponível do edifício, pensamos em aproveitamento de energia solar utilizando painéis solares fotovoltaicos, o que irá permitir reduzir custos de consumo de energia eléctrica. 

O conforto térmico no interior é também garantido pela utilização de caixilharias de vidro duplo com corte térmico e vidros com protecção solar. O ensombramento das próprias caixilharias resulta do afastamento desta ao plano de fachada. 

Em relação aos revestimentos interiores, deu-se primazia ao emprego de materiais uniformes, que correspondessem às exigências que este tipo de instituições tem. Mais concretamente, para os gabinetes de consulta e demais espaços técnicos preconizou-se pintura epoxy multicapa para os pavimentos, tanto pela sua durabilidade como por permitirem uma boa manutenção e fácil higienização. Em relação aos paramentos verticais, escolheu-se igualmente um material facilmente lavável, tal como o Esmalte Epoxi Aquoso. 

Para as zonas nobres, como forma de continuidade do exterior para o interior, manteve-se nos paramentos verticais os painéis de betão pré-fabricados, e nos pavimentos, assumiu-se parcialmente a continuidade com o pavimento exterior em pedra lioz, tão característica da zona onde o edifício se insere, intercalando com zonas com a pintura epoxy multicapa, pelas mesmas razões acima referidas. 

LocalizaçãoCarcavelos, Portugal
Tipo de ProjectoConcurso / Saúde
Ano2018
Área2123 m2
ClienteCâmara Municipal de Cascais

ArquitecturaTiago Rebelo de Andrade
Marta Pinheiro de Almeida
Sofia Travassos
Arquitectura PaisagistaGet Out, Arquitectura Paisagista
Projecto de EstruturasGravidade International Lda
Projecto de Electricidade e Instalações MecânicasGravidade International Lda
Projecto de Águas e EsgotosGravidade International Lda

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